• Calendário

    dezembro 2009
    S T Q Q S S D
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28293031  

Stand By

Às vezes palavras ficam velhas. Não o uso desta ou daquela mas a coisa em si.

Tem um quando aqui e alí. Não importa o que se diga. Nem sempra há algo a se dizer.

Fica-se naquela longa pausa entre dois acordes furiosos. O silêncio do meio do caminho.

Existe sempre a velha tempestade a sempre desejada bonança e o desesperado espaço entre elas. O velho não no meio do caminho.

O stand by entre antes e depois sem significado.

Palavras significam antes de serem.

E às vezes tudo é vazio.

Às vezes nada.

Velhos Insights Novos Significados

Vivendo a esperar a espera mata.

Vai de degrau em degrau, de espera em espera, nada agora que valha à pena.

Sai do quarto e checa a porta da sala a procura de novas cartas jogadas no chão.

Fica ao lado do telefone, uma mensagem que seja.

Telefonema à cobrar, 50 reais no fim do mês.

Tenta não lembrar das substâncias que a fariam esquecer de esperar.

Tenta não lembrar das substâncias que a fariam feliz por minutos.

Tenta não lembrar das possibilidades pra lá da porta.

Tenta não lembrar que pode sempre se machucar um pouco mais. Isso poderia aliviar as coisas.

Tenta se concentrar em fazer com que algo aconteça. Algo seu. Sem espera.

Não consegue.

A dependência do minuto seguinte já engoliu suas vontades.

Um Segundo

Sinto-me intocável.

Não no sentido de que nada pode me tocar.

Mas no sentido de que não posso tocar nada.

Sinto-me intocável.

Não toco.

Parece uma letargia.

Alguém sentado num dia de grande calor e mormaço, vendo as coisas através das ondas vertiginosas do calor.

As ondas da medeira crepitando numa lareira imaginária desconfigurando tudo.

Parece um isolamento.

Como alguém trancado num pequeno cômodo, dentro de outro cômodo maior, dentro de uma construção qualquer. Longe de tudo o que acontece no exterior. De si e da construção.

Mais distante pela música alta e inebriante, e o barulho distante da chuva.

Parece alienação.

Lá fora nada acontece. Nada que mereça atenção. Nada diferente do que se passa dentro. As ações não têm importância. Importam apenas os sentimentos que as impulsionam. E sentimentos são sempre os mesmo em todos os lugares.

Nada diferente do que se passa dentro.

Parece implosão.

A avalanche de tudo bate na parede interna e volta. Não há vazão. O choque constante erodindo vagarosamente tudo por dentro. A coisa cai, dentro de si mesma. Implode.

Parece um jogo.

Tudo vai e volta e repete e começa de novo outra vez. O placar perde importância. Mais grave é o vício. O roteiro montado over and over again.

Parece tanta coisa e não é nada.

É só você parado um instante sentindo tudo de uma vez.

E a dor resultante.

E o sinal verde te mergulha novamente na multidão.

Prelúdio de um Instante

Naquela última vez. Não antes. Antes não foi tão difícil. Foi naquela última vez quando seu rosto ainda se mateve grudado ao meu por mais dois segundos, foi aí que meu coração se dilacerou como não havia feito antes.

Foram os dois segundos. A culpa toda dos dois segundos de rosto colado que fizeram meu coração se colar profundamente ao seu de maneira que a separação, mesmo que macia e quente de lágrimas, se tornasse assim, como eu disse, dilacerante.

Nada foi mais o mesmo desde então. E sei; já que houveram tantos nadas foram mais os mesmos em minha vida, que este foi sem precedentes. Divisor de águas. Dividindo de maneira finalizadora, como que querendo chegar do clímax ao fechar da cortina e terminar a história. Mas a cortina continua aberta.

E o desenrolar da peça, agora transformada, agora toda outra história, agora todo outro enredo mantém-me morna. Aqui morna, parada, com o mundo pulando em volta, querendo apenas aqueles dois segundos de volta.

Prelúdio da Grande Tempestade

Prelúdio da grande tempestade

Chegou em casa. Deitou-se um pouco. Antes de mais nada.

Queria sentir mais um pouco.

Sensação de estranheza. Calafrios.

Sentiu vontade súbita de limpar todo seu corpo.

Despir-se dos adereços das significações perdidas.

Significações que pensa nem nunca ter chegado realmente a entender.

Levantou.

Em frente ao espelho das águas retirou todo o resto de sangue

sujo que ainda lhe sobrava.

Fez com que escorresse sujo corrente abaixo.

Jogou todos os pinos que seguravam seus velhos ossos

fora e tentou andar.

Tomou o elixir da cura de seu pajé sagrado.

Limpou as feridas abertas com ungueto puro.

Cobriu-se com linho branco e se pôs a descansar

Edhud II

Qual é a da vizinhança? Onde estão? Batem em nossas portas. Infelizes bastardos.

Aqui está tudo coberto pela água. Vc pode me ouvir?

Ah. Edhud, vc pode me ouvir?

O som está abafado.

Eu olho as bolhas de ar saindo boca acima. O grito abafado.

Por que ainda batem em nossas portas? Parem de bater nas portas. Todas  sarcófagos.

Infelizes desgraçados.

Vc pode voar Edhud?

Vc pode? Quando éramos crianças vc sempre me disse que podíamos voar lembra?

Eu flutuo Edhud. Está tudo certo então. Eu tiro os pés do chão. Isso está bom pra vc? Eu e a água toda do mundo.

Porque diabos eu deveria voar. Vc sempre mentiu Edhud. Eu cai quando tentei lembra?

Lembra do imenso galo enorme em minha cabeça. Eu lembro bem. A Primeira vez que o vi obscuro. Obscuro seu olhar Edhud. Olhar negro. Vc estava rindo. Rindo-se de mim, lembra?

Vc pode me ouvir?

Deixe a porta em paz. Os navio partem do porto. E sua boca se move.

Nada pode me afundar.

Edhud I

Estou cansada de todos estes jogos

Fala aqui. Fala de daqui pra lá. Fala de lá pra cá. Vê isso naquilo. Quer tudo.

Eu dou. Eu dou tudo. O que mais devo entregar. Não entendo. Qual é a intenção.

O maxilar grudado, prensado forte. O que mais.

Arrumo a vontade não sei onde. Onde esta a vontade. A vontade é de que?

O tremor. Sempre o tremor. Edhud? Onde vc está? Onde está vc Edhud? Vc que sempre fez de tudo. Vc que sempre esteve presente a me ajudar a fzer as entregas. Vc que sempre me tirou toda a dor?

Onde está vc Edhud?

Onde está aquele pedacinhho que sabia guardar todo o lixo pra depois?

Onde eu ponho toda essa merda fétida?

Onde Edhud?

Vc sempre me ensinou bem. Fui a melhor aprendiz. Sempre a melhor. Fiz tudo direitinho. Abri a carne a faca. Guardei o pedaço sujo dentro. A putrefação inexata. A negação.

Onde ponho isso agora? Se nem sei de onde veio.

Tire o tremor de mim. O tremor vem. Eu não sei mais. Perdi o controle. Cadê vc Edhud e todas as técnicas gigantescas dos finais dos tempos? Onde ponho todo esse azul sujo?

Foi embora e me deixou só. A carne está cheia. A carne está cheia Edhud!

A carne está cheia e ninguém sabe o que está vendo.

Tava tudo tão preso embaixo do tapete. Que grande merda Edhud.

Derrelição. Toda a derrelição. A senhora D era isso? A senhora D sobreviveu a tudo isso. A porra da derrelição.

Isso é todo o frio do mundo. Todo o frio de todo o mundo.

Magma saltitante.

Nostalgia Bêbada de uma Bêbada Inveterada

Nostalgia. Nostalgia de tanto tempo. Já há tanto tempo passado. Já há tanto passado neste tempo pra se sentir. Sentir falta. E sentir falta boba e insensata de tanta besteira, de tanta sujeira, de tanta maldade e dor. De tanta dor. E sente. Sente mesmo assim. Conheces o caminho da saudade. Da saudade como berço. Como travesseiro. Como conforto sujo mas conhecido. Como bailarina que repete o mesmo número, a mesma dança. Como bailarina amada que nem mais dança. Que nem mais veste a sapatilha mas que desfila o mesmo bailado na sua frente. E ela desfila sem saber o mesmo bailado que foi sempre dor. O bailado que ela lambe da palma da mão. O bailado que ela conhece ancestral. Que ela sabe e que ela sente. E ela roda, roda. A roda torta. A roda desfigurada. A roda que ela conhece de cor, a roda que ela te amiga. A roda do vício, do caminho e a roda do descaminho. Ela sabe que dança. Dança sempre a roda do descaminho que sente seu.

Memória truncada ou Sujeira revisitada

Eram amigos, se conheciam desde que seus nomes ainda eram diminutivos. Não só os dois mais as famílias também, todos muito amigos, quase sangue.Não se viam havia anos. Os nomes agora já apelidos, brincadeiras, codinomes. E foi uma surpresa se cruzarem numa festa na qual não esperavam se encontrar. Ele se apaixonou (ou quase) e ela também. Foram tantos beijos loucos e tanta cumplicidade sincera, cumplicidade trazida pelos anos, já que eram completamente diferentes em tudo o que poderiam ser. Foram horas poucas mais deixaram marcas, marcas daquelas que andam junto com você em algum lugar escondido que ninguém vê mais que incomodam quando tocadas. Passaram-se meses até que se encontrassem de novo. A locação do segundo encontro já não era neutra. Ele foi visitá-la e ninguém se lembra por que. Não se tocou no assunto daquela outra vez, era como se não tivesse acontecido. Antes de ir embora o beijo de despedida. Foi exatamente neste momento em que ela se perdeu completamente. Vontade louca, louca de vê-lo, de tê-lo, de transformá-lo. Num outro dia, sairam de novo e quando o concerto já havia terminado, foram todos para a chácara de uma amiga. Ela agora já embriagada de vinho, de noite e de vontades dançava em volta da fogueira. Dançava, rodopiava, fechava os olhos e via somente aquela paz morna, aquela alegria pura. Sentia-se pura. Alguém a puxou e dançou com ela aquela uma música e nem importava quem fosse, não abriu os olhos só pra sentir melhor. Mas a paz nunca lhe era suficiente, então fumou mais, bebeu mais, cheirou mais e chegou ao limiar de alegria suprema, daquela que só se reconhece por inexistir na manhã seguinte. Ela lembrava de tudo isso mesmo muitos anos depois e são vários os motivos que não a deixam entender porque naquele momento ele teve de arrastá-la para aquele quarto sujo, porque teve de tirar suas roupas sujas e porque teve de penetrá-la até que sua alma ficasse marcada por toda aquela sujeira indelével. No dia seguinte acordou sentindo-se mal. Quando cruzou a sala para vomitar encontrou-o mirando-a em reprovação absoluta e então ficou triste por perceber que era provavelmente mesmo tudo sua culpa. Não devia confiar em ninguém daquela maneira.

Madeimoselle Beated

Vive em busca de inspiração louca e derradeira

perseguindo deuses oprimidos

deuses marginais na sarjeta escura da loucura negra

da loucura branca, da loucura multicolorida dos loucos e dos marginais

Louca e louca e louca

e louca de buscar aquele outro seu eu

aquele perfeito estado de contentamento alheio

que só lhe trouxe tristeza

Corta as pernas de todas as baleias ancestrais

em busca do fogo sagrado suspirado aos ouvidos do conhecimento

em busca da velha costura que lhe traga de volta o sangue perdido

Queima insaciável em todo o ácido que escorre

deita-se e rola e lava a alma com o ácido quente

o ácido da dor da perda primeira

E cura e liberta o sorriso perfeito

de alegria sincera e deformada

através de agulhas e linhas escuras

selando lábios alheios

os lábios e suas línguas loucas berrando entremeios

em busca da chave na luz do sol na beirada da janela

a chave entre as grades

a chave entre as cordas

entre os calcanhares amarrados aos pés da cama

a chave depois das agulhas gigantes

do líquido viscoso do deus do sono e da paz

o sonho do grande berro do lado de fora da porta

da sangue sujo na cama do lado de dentro

das mãos que tremem em busca da cinza do cigarro

velho dos pés balançando acima do chão

e do grande roxo na altura do pescoço aquele braço enorme

pílulas saltitantes diluídas no amargor do velho copo

pílulas engolidas e regurgitadas em grandes nós

e os convites sagrados das uniões divinas

dos grandes saltos dos arranha-céus

e a Itália distante e protegida

a espera da redenção e do momento final

e o que vem depois.

Labirintite

É quase como um vazio. É aquele espaço. Tá tudo cheio, completo, as laterais tomadas, mas no meio, em algum lugar bem no meio, talvez mais à esquerda, existe aquele pequeno vazio. Quando se sente esse vazio é como se todo o resto de repente fizesse sentido pela contradição, é também como se todo o resto perdesse a importância diante da distância que existe entre ele e o vazio. Porque se sabe que não há a menor possibilidade, diante do jeito em que todo o resto se encontra, de se tocar profundamente este espaço inalcançável. Sabe-se que ele está longe e que o que falta, o que poderia preenchê-lo, o que faria tudo finalmente pleno, o que é desconhecido, o que não se toca; sabe-se que é algo que não pode existir desta maneira, é algo que exige, que necessita de uma mudança enorme, quase radical. Mudança que nunca estamos dispostos a aceitar. Não agora. E sempre é agora.

Fica-se assim então. Meio completo, meio incompleto. Meio inacabado. Fica-se a esperar o momento seguinte. O momento em que teremos certeza e o momento em que teremos coragem. Fica-se assim, no meio-fio. Em cima do muro. Achando que tudo é como deve ser, que tudo faz parte do processo, que está tudo no lugar. Achando que no fim tudo dá certo.

Coloca-se a culpa no gole de alguma coisa. Coloca-se a culpa no algum gosto, n’alguma presença, n’alguma falta. Coloca-se a culpa numa qualquer outra coisa que se pensa ela mesma o vazio, mas que não é. Ah, sério. Sabe que não é.

Levanta da cadeira, vai ali buscar, traz mais pra cá, telefona, escreve, risca, fala mais alto, aumenta o som, troca a música, desliga a campainha, bate a porta, abre a janela, fecha o vidro, bebe um gole, mais um gole, lava o corpo, esfrega tudo, limpa, arruma, só mais um pouco, leva pra lá, empurra a mesa, joga fora a coberta, desliga a luz, só mais um gole, fecha o livro, arranca a casca, toca pra lá, calça o chinelo, tá tudo frio, só mais um pouco.

E tem esse arzinho do lado, essa briza, esse buquê, essa merda que deixa o toque dessa coisa sublime a pouco mais de um dedo. Tá ali, é só pegar. E pega-se e ele escapa, ar que é. E não há outra maneira a não ser virar tudo de ponta-cabeça. É a única solução e não há outra saída. Taí, a resposta. Taí, o que queria ouvir. Ponta-cabeça. E só.

Só não se deve esquecer da labirintite. E da cama por fazer.

Webdesign…

Portfólio da Paty adicionado à página de webdesign…

Página portfólio da cineasta Patrícia Hayashi: www.patyhayashi.blogspot.com
Paty Hayashi

Fotografia…

Mais um ensaio colocado na página Fotografia…

Ensaio Fotográfico – Paisagem – Santa Maria da Serra

Este Blog…

Blog contendo material, portfolio, textos, enfim… realmente o resumo da ópera, além de posts aleatórios sobre tudo e qualquer coisa.