• Flickr Photos

    Mais fotos
  • Calendário

    dezembro 2009
    S T Q Q S S D
        jan »
     123456
    78910111213
    14151617181920
    21222324252627
    28293031  

Labirintite

É quase como um vazio. É aquele espaço. Tá tudo cheio, completo, as laterais tomadas, mas no meio, em algum lugar bem no meio, talvez mais à esquerda, existe aquele pequeno vazio. Quando se sente esse vazio é como se todo o resto de repente fizesse sentido pela contradição, é também como se todo o resto perdesse a importância diante da distância que existe entre ele e o vazio. Porque se sabe que não há a menor possibilidade, diante do jeito em que todo o resto se encontra, de se tocar profundamente este espaço inalcançável. Sabe-se que ele está longe e que o que falta, o que poderia preenchê-lo, o que faria tudo finalmente pleno, o que é desconhecido, o que não se toca; sabe-se que é algo que não pode existir desta maneira, é algo que exige, que necessita de uma mudança enorme, quase radical. Mudança que nunca estamos dispostos a aceitar. Não agora. E sempre é agora.

Fica-se assim então. Meio completo, meio incompleto. Meio inacabado. Fica-se a esperar o momento seguinte. O momento em que teremos certeza e o momento em que teremos coragem. Fica-se assim, no meio-fio. Em cima do muro. Achando que tudo é como deve ser, que tudo faz parte do processo, que está tudo no lugar. Achando que no fim tudo dá certo.

Coloca-se a culpa no gole de alguma coisa. Coloca-se a culpa no algum gosto, n’alguma presença, n’alguma falta. Coloca-se a culpa numa qualquer outra coisa que se pensa ela mesma o vazio, mas que não é. Ah, sério. Sabe que não é.

Levanta da cadeira, vai ali buscar, traz mais pra cá, telefona, escreve, risca, fala mais alto, aumenta o som, troca a música, desliga a campainha, bate a porta, abre a janela, fecha o vidro, bebe um gole, mais um gole, lava o corpo, esfrega tudo, limpa, arruma, só mais um pouco, leva pra lá, empurra a mesa, joga fora a coberta, desliga a luz, só mais um gole, fecha o livro, arranca a casca, toca pra lá, calça o chinelo, tá tudo frio, só mais um pouco.

E tem esse arzinho do lado, essa briza, esse buquê, essa merda que deixa o toque dessa coisa sublime a pouco mais de um dedo. Tá ali, é só pegar. E pega-se e ele escapa, ar que é. E não há outra maneira a não ser virar tudo de ponta-cabeça. É a única solução e não há outra saída. Taí, a resposta. Taí, o que queria ouvir. Ponta-cabeça. E só.

Só não se deve esquecer da labirintite. E da cama por fazer.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: