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Velhos Insights Novos Significados

Vivendo a esperar a espera mata.

Vai de degrau em degrau, de espera em espera, nada agora que valha à pena.

Sai do quarto e checa a porta da sala a procura de novas cartas jogadas no chão.

Fica ao lado do telefone, uma mensagem que seja.

Telefonema à cobrar, 50 reais no fim do mês.

Tenta não lembrar das substâncias que a fariam esquecer de esperar.

Tenta não lembrar das substâncias que a fariam feliz por minutos.

Tenta não lembrar das possibilidades pra lá da porta.

Tenta não lembrar que pode sempre se machucar um pouco mais. Isso poderia aliviar as coisas.

Tenta se concentrar em fazer com que algo aconteça. Algo seu. Sem espera.

Não consegue.

A dependência do minuto seguinte já engoliu suas vontades.

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Prelúdio da Grande Tempestade

Prelúdio da grande tempestade

Chegou em casa. Deitou-se um pouco. Antes de mais nada.

Queria sentir mais um pouco.

Sensação de estranheza. Calafrios.

Sentiu vontade súbita de limpar todo seu corpo.

Despir-se dos adereços das significações perdidas.

Significações que pensa nem nunca ter chegado realmente a entender.

Levantou.

Em frente ao espelho das águas retirou todo o resto de sangue

sujo que ainda lhe sobrava.

Fez com que escorresse sujo corrente abaixo.

Jogou todos os pinos que seguravam seus velhos ossos

fora e tentou andar.

Tomou o elixir da cura de seu pajé sagrado.

Limpou as feridas abertas com ungueto puro.

Cobriu-se com linho branco e se pôs a descansar

Labirintite

É quase como um vazio. É aquele espaço. Tá tudo cheio, completo, as laterais tomadas, mas no meio, em algum lugar bem no meio, talvez mais à esquerda, existe aquele pequeno vazio. Quando se sente esse vazio é como se todo o resto de repente fizesse sentido pela contradição, é também como se todo o resto perdesse a importância diante da distância que existe entre ele e o vazio. Porque se sabe que não há a menor possibilidade, diante do jeito em que todo o resto se encontra, de se tocar profundamente este espaço inalcançável. Sabe-se que ele está longe e que o que falta, o que poderia preenchê-lo, o que faria tudo finalmente pleno, o que é desconhecido, o que não se toca; sabe-se que é algo que não pode existir desta maneira, é algo que exige, que necessita de uma mudança enorme, quase radical. Mudança que nunca estamos dispostos a aceitar. Não agora. E sempre é agora.

Fica-se assim então. Meio completo, meio incompleto. Meio inacabado. Fica-se a esperar o momento seguinte. O momento em que teremos certeza e o momento em que teremos coragem. Fica-se assim, no meio-fio. Em cima do muro. Achando que tudo é como deve ser, que tudo faz parte do processo, que está tudo no lugar. Achando que no fim tudo dá certo.

Coloca-se a culpa no gole de alguma coisa. Coloca-se a culpa no algum gosto, n’alguma presença, n’alguma falta. Coloca-se a culpa numa qualquer outra coisa que se pensa ela mesma o vazio, mas que não é. Ah, sério. Sabe que não é.

Levanta da cadeira, vai ali buscar, traz mais pra cá, telefona, escreve, risca, fala mais alto, aumenta o som, troca a música, desliga a campainha, bate a porta, abre a janela, fecha o vidro, bebe um gole, mais um gole, lava o corpo, esfrega tudo, limpa, arruma, só mais um pouco, leva pra lá, empurra a mesa, joga fora a coberta, desliga a luz, só mais um gole, fecha o livro, arranca a casca, toca pra lá, calça o chinelo, tá tudo frio, só mais um pouco.

E tem esse arzinho do lado, essa briza, esse buquê, essa merda que deixa o toque dessa coisa sublime a pouco mais de um dedo. Tá ali, é só pegar. E pega-se e ele escapa, ar que é. E não há outra maneira a não ser virar tudo de ponta-cabeça. É a única solução e não há outra saída. Taí, a resposta. Taí, o que queria ouvir. Ponta-cabeça. E só.

Só não se deve esquecer da labirintite. E da cama por fazer.